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24 de Março de 2019 - 
A justiça atrasada não é justiça, senão injustiça qualifica.

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#DireitoDelas: Mayrielly Wiltgen

#DireitoDelas Hoje, Mayrielly Wiltgen, 43 anos, a May, que milita no Direito de Família e sucessões, conta como é ser mãe de Sofia, de 8 anos, de Bernardo, de 6, e de Catarina, de 3. A caçula nasceu com microcefalia e paralisia cerebral por causa de infecção por zyka vírus durante a gestação. A rotina transcorre na rigidez da logística e, por vezes, o trabalho volta com ela para casa para ser terminado depois do conto de fadas e do beijo de boa noite, madrugada adentro. Às vezes ela chora no banho e “grita em silêncio”. Mas dá conta de tudo, não tem outro jeito. Só não a chame de super-heroína, guerreira ou de qualquer outro clichê desse tipo. “Prefiro dizer que sou uma lutadora, porque, numa luta, perde-se ou ganha-se. A super-heroína não é dado o direito de sofrer, chorar, de se sentir fraca”, diz.     “A super-heroína não é dado o direito de sofrer, chorar, de se sentir fraca”   Depoimento a Clara Passi Foto: Bruno Marins   “Um dia comum começa às 7h, quando arrumo Catarina para as terapias. O pai a leva antes de ir trabalhar, eu busco e vamos para a escola dela, às 11h. Depois, volto para casa e arrumo as outras crianças para ir à escola, ajudo no dever de casa, dou almoço, de vez em quando dou uns berros, afinal ninguém é de ferro, e as levo para o colégio. De lá, vou para o meu escritório, onde chego às 13h30 e trabalho até 17h45, quando corro para buscar os três. Nessas quatro horas, tento fazer o que uma pessoa normalmente faz em oito. Tive que aprender a filtrar as causas, porque não teria tempo de me dedicar da forma como gosto.  Depois, banho, jantar e, às 21h, todos na cama. Ajeito a casa, cato brinquedos e vou estudar uma ação, cuidar de alguma pendência, às vezes até a madrugada.    Quando as perguntam como eu consigo dar conta, respondo que não tenho escolha. Meu perfil não é de arrastar corrente. Arrastei quando Catarina nasceu, o que foi intensificado quando fui demitida. Fiquei quase dois anos de luto. Mas daí veio um estalo e pensei: preciso fazer alguma coisa. Estava desempregada, com uma criança deficiente em casa, preciso arregaçar as mangas, tenho outros dois que precisam da mãe, que precisam estudar, de atenção. Não poderia passar a vida me lamentando pela condição da Catarina, angustiada com o futuro dela. Eu me olhei no espelho e vi uma mulher [à época] de 42 anos acabada, velha, feia. E eu sempre fui muito vaidosa.   Eu me dei o tempo do luto. Mas nunca se está curado dele, porque tenho meus momentos de sofrimento, de chorar no chuveiro e gritar em silêncio. Hoje dou palestras sobre os direitos da pessoa com deficiência e sempre digo que um responsável por criança com deficiência  precisa gritar, chorar, pedir ajuda.   A super-heroína não é dado o direito de sofrer, chorar, de se sentir fraca de vez em quando. Coloca-se um peso injusto sobre a mulher quando a chamamos disso ou de guerreira. Costumo dizer que sou uma lutadora, porque, numa luta, perde-se ou ganha-se. Não me acho uma mãe especial, minha filha nao é especial, é uma criança linda com deficiência. Não vou dizer que ela me tornou uma pessoa melhor, mas me tornou mais tolerante, mais objetiva.   Depois que Catarina nasceu, comecei a receber convites para palestrar, de mãe para mãe. Daí, veio a ideia de conciliar meu conhecimento jurídico para falar, como advogada, de mãe pra mãe. Mergulhei na área da inclusão. Catarina veio para me nortear dentro da minha profissão.   O pilar que acaba cedendo, quando estou muito cansada física e emocionalmente, é o da mulher, da vaidade, da atenção ao marido. O da profissão, não, porque minha renda compõe a renda doméstica. Aqui em casa, meu marido não me ajuda, ele faz a parte dele, que são 50%.    Meu feminismo é o da luta por igualdade salarial, respeito, por poder usar batom vermelho e a roupa que a mulher quiser sem ser atacada ou ofendida na rua. Mas que leva em conta que, determinadas atividades, são exclusivas do homem, por questão de estrutura física."   A série #DireitoDelas marca o Dia Internacional da Mulher, com histórias extraordinárias de advogadas que mostram, através de seus relatos, força para superar adversidades e tocar uma carreira apesar de filhos que demandam atenção constante, de dores pelo corpo, de cicatrizes de abuso causado pelo parceiro conjugal ou mesmo pelo Poder Judiciário.
15/03/2019 (00:00)
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